Construção sustentável com adobe

Construção sustentável com adobe

Você sabe o que é adobe?

Adobe é uma mistura de argila, areia, água e outros componentes naturais que é utilizado na confecção de tijolos crus. Geralmente eles são utilizados como alvenaria de vedação, mas podem servir para alvenaria estrutural se forem tomados alguns cuidados. O interesse em soluções sustentáveis na construção civil tem crescido muito e os tijolos de adobe são uma alternativa para construir com qualidade e consciência ecológica.

A terra bruta foi o primeiro material moldado pelo homem para construir sua moradia. Seu uso como matéria prima remonta mais de 10.000 anos. Técnicas construtivas utilizando barro e palha são descritas na Bíblia, no livro Êxodo. No antigo Egito e Mesopotâmia a grande maioria das construções eram de tijolos de argila secos ao sol, sendo que os tijolos queimados eram utilizados somente no interior de grandes estruturas, como os zigurates.

Zigurate de Ur, construído entre os anos de 2113 e 2096 a.C. com exterior em tijolos de adobe.

Figura 01 – Zigurate de Ur, construído entre os anos de 2113 e 2096 a.C. com exterior em tijolos de adobe.

O Irã, por exemplo, abriga algumas das cidades mais antigas do mundo, muitas delas construídas somente com terra e habitadas até hoje. As cruzadas, entre os séculos XI e XIII contribuíram para disseminar essa técnica construtiva pela Europa e depois por todo o mundo, com a expansão marítima europeia.

Yazd-web

Figura 02 – A cidade de Yazd, no Irã, toda construída com terra.

O adobe chegou ao Brasil com a colonização portuguesa, porém os índios já utilizavam técnicas parecidas, como pau-a-pique. As edificações em cidades rurais brasileiras do séc. XVI eram predominantemente de adobe ou mistas, como a igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Pirenópolis-GO, que foi construída em um sistema misto em taipa de pilão, adobe, alvenaria de pedra e madeira.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Pirenópolis, Goiás, que começou a ser construída em 1728.

Figura 03 – Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Pirenópolis – Goiás, que começou a ser construída em 1728.

A industrialização do sec. XIX aumentou a oferta de produtos industrializados e fez com que a arquitetura vernacular* e artesanal perdesse espaço. Recentemente, com o aumento das preocupações ambientais, muitas ideias surgem para tornar os processos construtivos mais sustentáveis.

Diversas pesquisas analisando as propriedades do concreto acrescido de resíduos de construção e demolição (RCD) estão sendo realizadas. Os selos de sustentabilidade como LEED, Aqua, Selo Azul Caixa e Procel Edifica são uma forma de chamar atenção de engenheiros e proprietários para a importância da preocupação ambiental em uma edificação. Junto com essas ideias vêm o resgate às construções artesanais e antigas.

Os tijolos de adobe possuem baixa demanda energética para serem produzidos, já que além de não serem queimados, como os tijolos comuns, eles muitas vezes são obtidos no próprio terreno da obra e moldados em fôrmas com as mãos ou com prensas manuais. Além disso, a argila é uma excelente reguladora de umidade, devido a sua alta capilaridade e os tijolos também são isolantes térmicos e acústicos, gerando economia de energia para os moradores.

Tijolos de adobe secando

Figura 04 – Tijolos de adobe secando

Nas construções de adobe, deve-se fazer uma fundação de concreto armado, pedra ou madeira, que impeça o contato dos tijolos com o solo. Além de impermeabiliza-los até uma altura adequada, geralmente até 1m. Outra medida preventiva, para evitar a absorção excessiva de água e, por consequência, o amolecimento dos tijolos, é fazer a casa com beirais grandes.

A edificação pode se projetada e construída de forma usual, com estrutura de pilares e vigas de concreto armado, utilizando o adobe somente como alvenaria de vedação. Porém, sabe-se que para construções de somente um pavimento e sem laje de concreto, com estrutura do telhado de madeira, é possível utilizar o adobe como elemento estrutural. Avaliações das propriedades mecânicas do adobe feito com prensa manual mostram uma resistência à compressão adequada para tal.

Cafeteria feita de adobe em Minas Gerais

Figura 05 – Cafeteria feita de adobe em Minas Gerais

Materiais alternativos têm ganhado espaço no meio acadêmico por meio do desenvolvimento de pesquisas, mas comercialmente ainda sofrem muito preconceito. Muitos engenheiros têm receio de utilizar materiais não consolidados pela indústria e o fato de o adobe não ser padronizado, ou seja, variar de acordo com onde a terra é extraída, dificulta a regulamentação da técnica.

Se você tem interesse em saber mais sobre adobe, participe da oficina de tijolos de adobe que será oferecida pelo PET/ECV na Semana do PET na UFSC (SEPET).

*Arquitetura vernacular: todo o tipo de arquitetura em que se empregam materiais e recursos do próprio ambiente em que a edificação é construída. Desse modo, ela apresenta caráter local ou regional.

Autoria: Júlia May Vendrami