Ponte Hercílio Luz: Quatro anos de construção e mais de vinte anos de reforma

Ponte Hercílio Luz: Quatro anos de construção e mais de vinte anos de reforma

Confira a história deste marco da Engenharia e Arquitetura de Santa Catarina, que levou apenas quatro anos para ser construída, mas cuja reforma se delonga há mais de 20 anos.

Em meados de 1920, Florianópolis era uma cidade em progressivo desenvolvimento econômico e abrigava cerca de 40 mil habitantes. O engenheiro civil Hercílio Pedro da Luz, que foi governador de Santa Catarina por três mandatos, participou ativamente nesse processo. Em 1894, quando assumiu seu primeiro mandato, Florianópolis não tinha acesso à luz elétrica, nenhum tipo de saneamento básico e era comum, por exemplo, ver tropas de bois atravessando a nado para chegar à ilha. Existia ainda um movimento para tornar Lages a nova sede administrativa e política de Santa Catarina, pois Florianópolis era considerada muito distante e isolada do resto do estado.

A necessidade de uma ponte era evidente, principalmente devido à grande circulação de comércio que ocorria entre a Ilha e as cidades vizinhas como Palhoça e São José. Em 1920, a circulação de mercadoria e pessoas era feita por botes, baleeiras, canoas a vela e lanchas motorizadas. Em dias de vento forte ou chuva, o risco de acidentes era muito grande.

Travessia para a Ilha de Florianópolis em 1920(1)

Figura 1 – Travessia para a Ilha de Florianópolis em 1920. Fonte: James, 2010.

Hercílio Luz protagonizou grandes obras de infraestrutura, como, a Avenida Hercílio Luz e a canalização do Rio Bulha. Porém, seu maior feito foi, sem dúvida, a construção da ponte de ligação da Ilha com o Continente. Infelizmente, ele não sobreviveu até a inauguração dessa grande obra (ocorrida em 13 de maio de 1926), que consolidaria Florianópolis como capital do estado, pois veio a falecer no dia 20 de outubro de 1924. O nome inicial “Ponte da Independência” foi alterado para “Ponte Hercílio Luz” como uma homenagem póstuma ao seu idealizador.

Estátua do governador idealizador da Ponte Hercílio Luz (2)

Figura 2 – Estátua do governador idealizador da Ponte Hercílio Luz . Fonte: Schmitz, 2014.

Para o projeto e a construção da obra foram feitos empréstimos em bancos americanos, os quais foram completamente pagos após 50 anos da inauguração da ponte. Esta obra de grande porte custou o equivalente ao dobro do orçamento do Estado na época. O projeto da ponte foi feito pelos engenheiros norte-americanos David B. Steinman e Holton D. Robinson. Já os engenheiros Albert Byington e Alfred Sundstrom, da firma Byington e Sundstrom, vieram ao Brasil para administrar o material e a obra em construção. Faziam parte da equipe também dezenove técnicos norte-americanos e operários catarinenses.

Alguns dados referentes à ponte Hercílio Luz (3)

Figura 3 – Alguns dados referentes à ponte Hercílio Luz. Fonte: DEINFRA, 2015.

A Ponte Hercílio Luz é uma ponte pênsil. Esse tipo de ponte foi muito utilizado para ligar grandes distâncias, porém sem dificultar o trânsito de barcos. Nessa técnica a ponte é sustentada por mastros e cabos. Pelos mastros principais passam os cabos que possuem o caimento de uma parábola. Desses cabos principais se apoiam os cabos de sustentação, todos verticais e equidistantes um dos outros. Essa forma de construção de pontes pode ser considerada uma evolução das pontes artesanais feitas de cordas nos primórdios da civilização, ou seja, essa técnica foi evoluindo ao longo de muitos anos.

Conforme um documento publicado pelo DEINFRA (2015), as fundações da Ponte Hercílio Luz consumiram 29 mil barricas de cimento de 180 quilos, vindas da Dinamarca, e a estrutura de aço, pesando 5 mil toneladas, foi fabricada em Nova York pela empresa U.S. Steel Co. As peças aportaram em Florianópolis juntamente com guindastes, martelos a vapor, compressores de ar e instalação completa de britadeiras.

Além de ser uma ponte em estrutura metálica pênsil (existem sete no Brasil), é a que possui maior comprimento e tem como característica marcante a sua suspensão formada por correntes de barras de olhal, em aço, articuladas por pinos também de aço, sendo atualmente a única no mundo com partes das barras compondo a corda superior da treliça de rigidez. O cabo principal da ponte é constituído de 4 correntes de barras de olhal termicamente tratadas, que suporta o vão central através de pendurais verticais.

Fundações da Ponte em 1923 (3)

Figura 4 – Fundações da Ponte em 1923 Fonte: DEINFRA, 2015.

A ponte foi interditada pela primeira vez em 1982, quando ainda abrangia 43,8% do tráfego de veículos, o que representava aproximadamente 27.345 veículos por dia. Em 1988 foi reaberta para tração animal, pedestres, ciclistas e motos. Em 1990, contudo, foi feito um relatório sobre as condições de uso da ponte Hercílio Luz e, em 1991, o trafego foi fechado definitivamente. Nesse mesmo ano, retirou-se o revestimento asfáltico, o que aliviou cerca de 400 toneladas nas fundações. Somente em 1992, ela virou patrimônio histórico, artístico e arquitetônico do Município de Florianópolis.

Em 2005, iniciou-se uma licitação para obras de reforma e restauração da ponte, principalmente algumas operações de caráter emergencial. Foram feitos serviços como limpeza e retirada de peças enferrujadas, substituição de rebites por parafusos provisórios, implementação de peças novas e reforços, jateamento e esmerilhamento abrasivo.  Também foi constatado o rompimento de barras de olhal com focos de corrosão, rótulas das bases das torres dos pilares principais comprometidas e degradação da estrutura metálica em geral.

A Empa Serviços de Engenharia atuou na restauração nos últimos meses. Essa foi parte mais delicada, chamada de fase Ponte Segura. Para essa etapa foram utilizados os serviços de mergulhadores equipados com câmeras para analisar o estado das estruturas submersas. Foram construídas quatro torres para sustentar as mais de quatro mil toneladas de aço da Hercílio, com o objetivo de transferir esse carregamento para as novas fundações, com a ajuda de mais de 50 macacos hidráulicos.

Imagem explicativa sobre a Etapa Ponte Segura (3)

Figura 5 – Imagem explicativa sobre a Etapa Ponte Segura. Fonte: DEINFRA, 2015.

Agora, deve ser iniciada a restauração dos elementos de estrutura, que é a principal parte da reforma. A empresa American Bridge, responsável pela construção da ponte na década de 1920, declarou que não fará proposta para a restauração. O governador Raimundo Colombo declarou, em nota, que está sendo cogitada a dispensa de licitação como uma forma de acelerar o processo. Sem o uso de licitação haverá mais liberdade para comparar o preço dos serviços com a qualidade, contudo poderá haver perda de transparência no processo.

Ilustração explicativa da colocação das treliças (4)

Figura 6 – Ilustração explicativa da colocação das treliças. Fonte: Clic RBS, 2015.

A Ponte Hercílio Luz tem um grande valor histórico, não só para os moradores de Florianópolis, como para a história de Santa Catarina. Em entrevista ao portal G1, o arquiteto e também professor do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), Fernando Teixeira, comentou: “A minha geração já nasceu com ela ali…Não tenho ideia de como seria Florianópolis sem a ponte”.

Por outro lado, existe uma corrente de especialistas que são contra a reforma da ponte por achar o projeto insustentável. Como exemplo temos o professor Berend Snoeijer, do Departamento de Engenharia de Mecânica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que escreveu um artigo para o Diário Catarinense alegando que a ponte possui um tempo de vida limitado, e para que ela volte a funcionar seria necessário desmontá-la e recolocar todas as peças. O engenheiro também comentou que, por causa da maresia, do tempo e do material utilizado, a ponte vem perdendo as características de contração e dilatação, o que causaria em breve um colapso na estrutura. Para ele a American Bridge não se interessou em fazer a reforma não por motivos cambiais, como foi alegado, mas por não ter garantia da segurança e da estabilidade da ponte após a reforma.

O procurador Diogo Ringemberg, do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas (MPTC), desenvolveu um trabalho nos últimos seis meses avaliando a maneira de como o governo do estado aplicou o dinheiro destinado a reforma da ponte. Concluiu que o governo gastou cerca de 563 milhões de reais na reforma e revitalização, incluindo também os gastos com o fechamento da ponte. Conforme entrevista ao G1, ele afirma que, com esse dinheiro, poderiam ser construídas três pontes do mesmo tamanho da Hercílio Luz e com os mesmos moldes da ponte Anita Garibaldi de Laguna.

Apesar da opinião de alguns especialistas, o governo do estado segue os planos da obra. O Presidente do DEINFRA, Wanderley Teodoro Agostin, afirmou em entrevista: “Sonho em voltar a passar na ponte pelo que ela representa como patrimônio e a melhoria que vai trazer para a mobilidade urbana”.

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Autoria: Cristina Damázio Pacheco

Acesso as REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.