Bioconcreto – O Concreto que ganhou vida

Bioconcreto – O Concreto que ganhou vida

O conceito de dar vida a matérias inanimadas já é antigo no cinema e na mente dos cientistas, porém somente nas últimas décadas o avanço tecnológico permitiu um desenvolvimento considerável na área. Esse avanço alcançou áreas inesperadas, atingindo até mesmo o concreto. Porém, isso não significa que foi criada uma casa-robô de concreto, o conceito de concreto-vivo é muito mais simples e técnico.
Ao notar o grande investimento da comunidade europeia na correção de fissuras no concreto, o cientista microbiologista alemão Henk Jonkers desenvolveu um material totalmente inovador, um concreto que cicatriza suas próprias fissuras.

foto-02

Imagem 1 – Andamento do processo de fechamento das fissuras.

O concreto convencional, que é o segundo material mais utilizado na construção civil, sendo o primeiro a água, evoluiu muito até chegar no que é hoje, ganhando novas tecnologias e derivações, tanto no preparo quanto no material em si. Uma dessas derivações é o bioconcreto, também conhecido por concreto vivo. O nome vistoso deriva do seu método de confecção, que consiste em adicionar uma espécie de bactéria e também seu alimento no fabrico do concreto convencional. Mas por mais simples que pareça, a pesquisa exigiu anos de prática e atualmente se encontra no final das fases de testes.
A bactéria, bacillus pseudofirmus, é um bacilo que vive em ambientes extremamente inóspitos como crateras de vulcões em atividade ou lugares com pH acima de 10,0. Por possuir tal resistência, ela é adicionada ao concreto, para que possa agir e sanar as possíveis fissuras provenientes de alguma perturbação ou das ações dos agentes naturais. Assim que as fissuras principiam, as bactérias estão encapsuladas, “adormecidas”, e com o contato com a água, são despertadas. Então, se alimentam do lactato de cálcio adicionado na produção do concreto e da água que o estimulou. Após consumir tais elementos, o bacilo origina calcário como produto da digestão, que  fecha as fissuras previamente abertas.

bacterias-com-fome2

Imagem 2 – Processo de calcificação do concreto.

“Essa inovação está claramente olhando através do futuro. O bioconcreto irá prolongar a vida útil de pontes, ruas e túneis, além de dar uma perspectiva completamente nova da produção do concreto.” JONKERS, Henk.

Henk afirma que não há limites para o comprimento das rachaduras a serem saradas, a única coisa capaz de conter o progresso das bactérias é a espessura das fendas, que segundo o cientista ainda não podem passar de 0,8 mm. Jonkers diz também que o limite da validade do bacilo não é preocupante, pois eles podem viver até 200 anos encapsulados dentro do concreto.

foto-13

Imagem 3 – Abertura de fissuras para análise do fechamento.

“O que torna tão especial esta bactéria produtora de calcário é o fato de que elas são capazes de sobreviver em concreto por mais de 200 anos e entram em jogo quando o concreto está danificado. Por exemplo, se as rachaduras aparecem como resultado da pressão sobre o concreto, o concreto vai curar ele próprio.” JONKERS, Henk.

Como se não bastasse essa invenção, o cientista em conjunto com sua equipe adaptou o conceito do bioconcreto para um líquido, que pode ser aplicado diretamente sobre paredes que foram fabricadas com concreto tradicional, com intento de curar possíveis fissuras já existentes ou proteger a edificação.

foto-05

Imagem 4 – Líquido com “bacillus pseudofirmus” sendo aplicado.

Toda pesquisa rendeu a Jonkers o prêmio de melhor inventor europeu de 2015 pela Universidade Técnica de Delft, na Holanda. Mas pelo fato do projeto ser absolutamente novo e tratar de um assunto tão sério, estrutura das edificações, há receio em liberá-lo ao mercado antes de ter todos os ajustes completos, apenas existem projetos-beta que são regularmente inspecionados pelo microbiologista. Apesar disso a tecnologia já foi implantada em canais de irrigação no Equador, porém atualmente o carro-chefe é uma residência periodicamente inspecionada pelo cientista.

foto-12

Imagem 5 – Henk Jonkers, premiado como melhor inventor europeu de 2015.

foto-06

Imagem 6 – Residência feita com bioconcreto e periodicamente inspecionada.

“Nosso concreto vai revolucionar a maneira como construímos, pois nos inspiramos na natureza, e mais que inspirado na natureza, o bioconcreto é feito dela”, disse Jonkers, por ocasião de receber o prêmio de melhor europeu inventor em 2015.

Apesar de não haver dúvidas quanto ao funcionamento do concreto-vivo, ele ainda não passou integralmente pelo mais duro dos testes, o mercado. E a situação para os pesquisadores pode ainda piorar, pois atualmente já estão criando outro material que tem a mesma finalidade do bioconcreto, porém com um funcionamento a base de polímeros que reagem com a água. Como essa segunda pesquisa se encontra ainda em fases iniciais não há muitos dados comparativos. O que se sabe é que o concreto-vivo está começando a ser introduzido no mercado na Europa com preços em média 40% acima do concreto convencional. Então para uma total adesão às obras do mundo só falta baratear o bioconcreto e fazer com que ele se firme no mercado antes que outras tecnologias o façam.

foto-10

Imagem 8 Antes e depois da ação do concreto-vivo.

Autoria: Gabriel dos Santos Kretzer

Acesso às referencias bibliográficas.