Aterro da Baía Sul: A Separação entre o mar e o centro da Capital Catarinense

Aterro da Baía Sul: A Separação entre o mar e o centro da Capital Catarinense

O Parque Metropolitano Dias Velho, mais comumente conhecido como Aterro da Baía Sul, foi um feito de extrema importância para a infraestrutura da cidade, pois possibilitou a construção da ponte Pedro Ivo Campos, ao lado da ponte Colombo Salles. A construção do aterro teve início em 1972, e no ano de 1978, a fachada do Mercado Público de Florianópolis deixou de ser banhada pelas águas do oceano, local de muito trânsito de mercadorias e pessoas até meados de 1970.

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Figura 2 – Comércio pesqueiro na lateral da ala norte do Mercado Público em 1921. Fonte: Fotosantigasflorianopolis, 2011

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Figura 3 – Mercado Público em meados de 1950. Fonte: Myfriendinfloripa, 2013

Com aproximadamente uma área total de 600 mil m², e 3,5 milhões m³ de postos sobre a água, a obra teve como objetivo proporcionar mais espaço para o desenvolvimento urbano e rodoviário da capital catarinense, além do incentivo ao turismo numa área nobre no portal de acesso da cidade. Infelizmente sua execução não seguiu os projetos propostos, sendo modificada a critério de cada governo do Estado, gerando o que é possível ver hoje, um mosaico de pequenos interesses governamentais. Estacionamento, centro de eventos, estação de tratamento de esgoto e sambódromo são alguns exemplos desse mosaico de interesses.

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Figura 4 – Início das obras do aterro em 1971. Fonte: Cerradoilha, 2013

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Figura 5 – Obras no aterro em 1975. Fonte: Floripendio, 2010

Alguns projetos arquitetônicos foram realizados a fim de revitalizar a área até então denominada “morta”, prevendo áreas de lazer, complexo esportivo, comércio e prédios da prefeitura. De todos esses projetos, o que se sobressai é o do paulista Roberto Burle Marx (1909-1994) em 1970.

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Figura 6 – Roberto Burle Marx. Fonte: Sitioburlemarx, 2012

Em seu projeto, estavam previstos aumentar o espaço na área central, diminuir congestionamentos, aumentar o comércio, abrigar a sede administrativa do governo do Estado, servir também como centro de lazer com quadras de voleibol, futebol, basquete tênis e futebol de areia, passarelas, playgrounds e a praça em frente do Largo da Alfândega com piso de petit-pavé (pedras portuguesas), repleta de árvores nativas e palmeiras.

Tal projeto teve como principal referência o projeto do Parque Brigadeiro Eduardo Gomes, mais comumente conhecido como Aterro do Flamengo, um complexo de lazer inaugurado em 1965 na Baía da Guanabara – Rio de Janeiro.

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Figura 7 – Aterro do Flamengo-Rio de Janeiro. Fonte: Skyscrapercity, 2011

Hoje, o que se pode ver como resultado da execução do projeto para a capital são somente as palmeiras em frente ao centro de eventos CentroSul e também uma única passarela sobre a Avenida Paulo Fontes, também em frente ao edifício. Nisso tudo fica evidente que as obras não seguiram os propósitos do projeto de Burle Marx, sendo os principais prejudicados os habitantes da metrópole.

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Figura 8 – Palmeiras em frente ao CentroSul. Fonte: Ndonline, 2016

Com o intuito de reaproximar o centro das águas do mar, novos projetos arquitetônicos para a área foram construídos e avaliados em um concurso que ocorreu em 1997, sendo o vencedor, o arquiteto André Schmitt.

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Figura 9 – André Schmitt. Fonte: Casasul, 2016

Sua ideia consiste em, ao contrário do que muitos diziam, levar o mar até o centro através de um canal artificial implantado entre a estação de tratamento de esgoto e o centro de eventos, criando um pequeno lago em frente ao mercado público e a alfândega. O mais interessante é o fato de que pequenas embarcações poderão entrar no canal, reabastecendo o Mercado Público com mercadorias, lembrando fortemente como era o dia a dia ao redor do marco histórico.

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Figura 10 – Projeto de André Schmitt. Fonte: Casasul, 2014

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Figura 11 – Projeto de André Schmitt. Fonte: Mosarquitetos, 2014

A ideia é muito interessante, porém como o projeto é antigo – nota-se sua desatualização pela ausência do elevado Rita Maria, ao lado da rodoviária – sua execução é improvável, pois no fim de 2004 foram construídos os terminais interurbanos nos principais bairros da cidade, ressaltando o Terminal Interurbano do Centro – TICEN, que hoje ocupa o espaço do lago artificial no projeto de Schmitt.

De fato, a criação do aterro foi de suma importância para a cidade, pois através dele foi possível construir a terceira ponte de ligação entre Florianópolis e o continente, além de ampliar os espaços para o crescimento da cidade, tanto urbano quanto rodoviário, porém não foram somente sob essas solicitações que o aterro foi construído. A presença do sambódromo, estação de tratamento de esgoto, estacionamento, edifício da polícia civil e centro de eventos também compuseram a gama de obras que se seguiram sobre o aterro, apesar destas não serem de grande relevância e necessidade para o local em específico, visto que esse poderia ser um espaço de lazer. Por outro lado, obras como o mercado público e a alfândega agregaram mais valor à área, estas resgatam o passado da capital e ainda movimentam o comércio local.

O mercado público é um patrimônio de grande valor para Florianópolis, logo é importante mantê-lo em perfeito e, se for possível, transformar o ambiente que o envolve ao que era originalmente, através da principal ideia do projeto de André Schmitt, um pedaço da história voltará a vida, agregando ainda mais valor histórico para o monumento e ao “pedacinho de terra perdido no mar”, que é Florianópolis. Desta forma, cabe a nós incentivar a prefeitura de Florianópolis a retomar as atividades necessárias para embelezar e dar total funcionalidade a esta área nobre no portal de entrada da capital.

AUTOR: Vinícius Senger Rayes

Acesso as referência bibliográficas.