BRT em Florianópolis: projeto para uma cidade mais conectada

BRT em Florianópolis: projeto para uma cidade mais conectada

Florianópolis lidera o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) entre as capitais brasileiras e é um dos principais destinos turísticos do país. Contudo, seus atrativos trazem problemas aos moradores e visitantes. Segundo uma pesquisa da Universidade de Brasília (UnB), realizada em 2015, sua mobilidade urbana é a pior entre as 27 capitais brasileiras. Congestionamentos e dificuldades locomotivas fazem parte do cotidiano dos moradores da capital. Isso se dá devido a uma série de fatores, incluindo o acentuado aumento populacional, que resulta em um acréscimo no volume de veículos de transporte individual. Sendo assim, a melhoria no transporte coletivo se mostra como uma alternativa na busca por uma mobilidade eficiente.

O BRT (Bus Rapid Transit) surge como uma opção de solução para o problema. É um sistema de transporte coletivo de passageiros por meio de ônibus que proporciona mobilidade urbana rápida, confortável e eficiente. Tem como características o uso de corredores de ônibus exclusivos, estações com cobrança de tarifa fora do veículo e plataformas de embarque em nível, alinhadas com o piso dos ônibus.  Visa combinar a capacidade e a velocidade de sistemas de transporte sobre trilhos, porém sem os gastos e dificuldades resultantes de sua construção e manutenção. Após uma série de análises da atual dinâmica viária da cidade, a Secretaria Municipal de Obras, junto com o Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis e a Secretaria de Mobilidade, elaborou um projeto conceitual para a implementação desse sistema e integração com a mobilidade atual.

O sistema BRT em Florianópolis, chamado pela prefeitura de “Rapidão”, será, após sua instauração, a maior intervenção de mobilidade urbana focada no transporte público coletivo já realizada no município. O primeiro projeto a ser desenvolvido e que já iniciou sua execução é o do Corredor Anel Viário Central. Ele prevê a implantação de 17 quilômetros de corredores exclusivos pavimentados em concreto para a circulação de ônibus BRT ao redor do Maciço do Morro da Cruz, através de suas principais vias de locomoção.

Figura 1 – Localização de corredores e estações do Corredor Anel Viário Central. Fonte: Prefeitura de Florianópolis / Divulgação

O projeto fará todo o contorno na região central, passando pelo TICEN (Terminal de Integração do Centro), Beira-Mar Norte, e também pelos bairros Trindade, Pantanal, Saco dos Limões e Prainha. A proposta de BRT não substitui por completo o modelo de transporte coletivo atual da cidade, mas deve ser integrado ao sistema. Nesse sentido, é importante que as estações centrais, que serão utilizadas para o embarque e desembarque dos usuários, sejam bem articuladas com a malha viária, de modo a garantir facilidade e segurança para a acessibilidade de pedestre e ciclistas. Para determinar sua localização foi levado em conta: proximidade a polos geradores de tráfego, facilidade de acesso por usuários, distância média entre as estações, disponibilidade de espaço, entre outros fatores.

Figura 2 – Conceito de articulação de entorno imediato como parte do projeto BRT Fonte: Prefeitura de Florianópolis / Divulgação (modificada)

Na Avenida Beira-Mar Norte, principal via de ligação da cidade, serão implantadas duas faixas exclusivas para ônibus. Elas se localizarão junto ao canteiro central, entre as faixas de sentido centro-bairro e sentido bairro-centro. Serão utilizados espaços que são atualmente utilizados como estacionamento, em frente aos prédios da avenida, para a construção. Também faz parte do projeto a ampliação da calçada e da ciclovia, com o aterro de parte da orla, como se verifica na Figura 3.

Figura 3 – Implementação do BRT com renovação urbanística do entorno e situação desejada no futuro para a Beira-Mar Norte. Fonte: Prefeitura de Florianópolis / Divulgação

A região do bairro Pantanal, passando pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pela Eletrosul, será um dos trechos de maiores mudanças. O projeto prevê a duplicação das vias da Rua Deputado Antônio Edu Vieira, e a implantação de faixas exclusivas para ônibus, além de calçadas e ciclovia. Devido à grande importância da via, que é um dos principais acessos ao campus universitário e ponto frequente de congestionamento, o seu projeto de duplicação já fazia parte do plano diretor do município desde a década de 1960. Apesar disso, vários entraves engavetaram a proposta por muitos anos. Para a execução, a Universidade já concedeu à Prefeitura parte de seus terrenos à margem da via, e depende agora da desapropriação de uma série de outros imóveis.

Na rótula da Eletrosul, com acesso à Avenida César Seara, será construído o primeiro elevado exclusivo para ônibus, que terá 118 m de extensão e 7 m de largura, de modo a liberar espaços para circulação de outros veículos nas vias de baixo.

Figura 4 – Elevado exclusivo para ônibus, na rótula da Eletrosul. Fonte: Prefeitura de Florianópolis / Divulgação

As primeiras fases da construção do Anel Viário Central já começaram a ser executadas. O primeiro segmento foi iniciado em março de 2017. Ele corresponde a 300 metros na Avenida Professor Henrique da Silva Fontes, entre o início da Rua João Pio Duarte Silva, no trevo da Dona Benta, e o trevo do Hospital Universitário (HU). Nele, 200 metros da construção de vias de concreto já estão concluídos, faltando, ainda, o alargamento da faixa e a construção de estação dupla de embarque e desembarque. O asfalto do trecho teve que ser retirado para posterior concretagem. Com isso, descobriu-se que o solo local não era adequado e que necessitaria de uma readequação, atrasando o andamento da construção.

Figura 5 – Trecho onde estão sendo construídos os 300m iniciais do BRT. Fonte: Prefeitura de Florianópolis / Divulgação

Figura 6 – Obra do corredor exclusivo na Av. Professor Henrique da Silva Fontes. Fonte: Marco Favero / Diário Catarinense

Já o segundo segmento dessa primeira fase foi iniciado em maio de 2016. Ele corresponde a aproximadamente 1.000 metros entre o trevo da Dona Benta e a rótula da Eletrosul, na Rua Deputado Antônio Edu Vieira. Nesse trecho, já foi concluída a drenagem e a terraplenagem para a construção das novas pistas. A obra deve prosseguir, após a conclusão desses dois primeiros segmentos, pelo trecho Sul do Anel Viário, chegando até o TICEN, via Pantanal, completando os primeiros 7 km do Anel Viário. As obras nessas áreas, porém, já se encontram atrasadas e tiveram seu prazo prorrogado devido a problemas com a empresa construtora.

Figura 7 – Obras de drenagem e a terraplenagem concluídas no bairro Pantanal. Fonte: Própria

Além de desafogar o tráfego na região central, a ideia é que, futuramente, o sistema se integre a outras regiões. Além do Anel Viário Central, existem planos para o deslocamento entre a região central e o Norte e Sul da Ilha, e também de articulação com a região metropolitana da capital, de modo a suprimir o frequente trânsito entre a Ilha e as regiões continentais.

O PLAMUS é o Plano de Mobilidade Urbana Sustentável da Grande Florianópolis, um grupo de estudo com o objetivo de promover a melhoria da mobilidade urbana nas 13 cidades da Região Metropolitana. Junto com o Observatório de Mobilidade da UFSC, após dois anos de estudos e análises da mobilidade na região, o grupo apresentou em 2015 um projeto que visa a implementação de um total de 57 km de vias exclusivas para o sistema BRT. Com linhas saindo de São José, passando pelo Estreito, em direção ao Centro, o projeto busca uma maior integração entre as cidades, com modificações na Via Expressa e na BR-101. Além disso, será implementado também um sistema de controle operacional, que vai supervisionar toda a operação em andamento e a sincronia de semáforos, através de um Centro de Controle Operacional (CCO) que será instalado no Centro da Capital.

Figura 8 – Modificações previstas para a Via Expressa. Fonte: Reprodução / Pacto Metropolitano

A expectativa é de que o sistema minimize uma série de problemas do atual modelo de transporte em Florianópolis. O projeto pretende otimizar o fluxo de trânsito e reduzir o tempo de viagem tanto no transporte público como no transporte individual, uma vez que ao possuir um sistema de transporte coletivo eficiente, um maior número de pessoas passará a utilizá-lo e deixará de ocupar o espaço de um veículo individual. A continuação das obras depende agora de comprometimento, por parte dos nossos órgãos públicos, para análise e liberação de recursos, e também por parte das empreiteiras responsáveis por sua realização.

Autor: Vitor Cazula Naves

Acesso às referências bibliográficas.